A História das cavacas de Freixinho
Doçaria conventual: o triângulo dos conventos da
Ribeira, Freixinho e Tabosa
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É vulgar a afirmação de que vivemos numa época de
profundo hedonismo, do homem tornado desejo ou sedução, uma época de
reificação de tudo o que respeita ao corpo e aos sentidos. O próprio
pensamento contemporâneo parece experimentar uma espécie de má consciência
por 25 séculos de enaltecimento do espírito em detrimento do corpo.
De facto, a tradição ocidental funda-se nessa dicotomia
Corpo/Espírito de matriz helénica, que o cristianismo adoptou sem grandes
ressalvas, e a modernidade retocou em vista de outros fins ou, em duas
palavras, de ontologia fez gnoseológica. A reacção contemporânea parece
assim perfeitamente legítima. Um dia escutei alguem fazer esta afirmação
num debate sobre Antropologia e, quase todos esperava-mos uma resposta
académica, e o professor limitou-se a dizer: " o homem científico-técnico do
nosso tempo tem feito mais pela destruição do seu aparelho sensitivo que
toda a tradição greco-cristã!... Vejam só quanto o nosso olfacto tem sofrido
com os desodorizantes, perfumes, after-shaves e afins".Se transpusermos este exemplo para o campo do paladar
temos de verberar contra os fogões, panelas de pressão ou os tão
sofisticados micro-ondas, antes que dobrem os sinos pelas nossas papilas
gustativas. Quem será capaz de, daqui a alguns anos, apreciar, sentir a
diferença entre um coelho estufado no pote de ferro e um outro estufado na
malvada e veloz panela de pressão? Ou então, para chegar-mos directos ao nosso
tema, entre as cavacas feitas como só as religiosas do Recolhimento
de Nª. Sra do Carmo de Frexinho que souberam ensinar e essas imitações
industralizadas em que o pão de trigo mais parece massa esponjosa sem sabor
nem consistência.
Do nosso riquíssimo património gastronómico a doçaria é, possivelmente, o
menos conhecido e o que corre maiores riscos de desaparecimento. A esse
património está associado o triângulo conventual, Ribeira - Freixinho -
Tabosa, todos conventos de religiosas, exceptuando o caso do da Ribeira,
incialmente de religiosos franciscanos.
As cavacas de Freixinho, esse delicioso pão de trigo tremês amassado
com ovos e, depois de cozido, embebido em açúcar são, pelo que sabemos, mais
conhecido e em menor risco de desaparecimento. O Recolhimento de
Nossa Senhora do Carmo de Freixinho foi fundado pelo Lic.
João de Gouveia Couto (ou Souto?), falecido em 13 de Junho de 1704, conforme
inscrição (transcrita pelo Ab. Vasco Moreira na sua monografia dedicada a Sernancelhe)
de sua sepultura na igreja. Deve, portanto, ter sido fundado na segunda
metade do século XVII, com o intuito de dar alguma educação às meninas de
famílias nobres mas sem grandes recursos, que eram admitidas mediante a
emissão de votos simples. (2)
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Os Fálgaros são criações das religiosas do Convento da
Tabosa, à data da fundação simplesmente uma quinta que D. Maria Pereira
transformou em comunidade de religiosas cistercienses, dependentes de
Alcobaça. Mulher rica e poderosa, parente dos Condes da Feira e viúva de
Paulo Homem Teles, tenente-general de cavalaria e governador das armas da
província da Beira, D. Maria Pereira era natural de Sernancelhe.
Sem filhos
nem herdeiros decidiu então adaptar a bonita quinta da Tabosa a convento
cuja escritura de instituição e dote data de 22 de abril de 1690, tendo como
outorgantes a própria e a congregação de Alcobaça, representada pelos abades
de S. Pedro das Águias e do Mosteiro de Salzedas.
Até à sua extinção em 1834, a vida das religiosas nem sempre foi pacífica uma
vez que o Marquês do Pombal, que provavelmente conhecia o Convento,
transferiu, por despacho real, as religiosas, rendas e dotação, para
Setúbal.
Quando D.
Maria I, restituiu as freiras ao seu convento o seu aspecto era desolador,
mas, com toda a certeza não mais que é hoje ou já era em 1929, nas
palavras de Vasco Moreira: " O Convento hoje causa pena. Estive há pouco
tempo ali e vi algumas das suas cela intactas, alguns corredores
regularmente conservados. |
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| O resto - salas, dormitórios, fontes, tanques, claustros - são
ruínas, ruínas, cujas pedras as silvas abraçam e a hera esconde, como que
envergonhadas e receosas, não vão os homens bárbaros acabar a obra que o
tempo aínda não completou". |
O Convento da Ribeira, inicialmente uma comunidade
franciscana masculina, passou a albergar freiras a partir do primeiro
quartel do séc. XVI, por vontade de D. Maria Pereira, com a sua homónima do
convento da Tabosa, natural de Sernancelhe, rica e poderosa, mas com duas
filhas que pretendia destinar à vida conventual. De forma violenta ou não -
é coisa que não se sabe - os frades foram expulsos para que D. Maria aí
desse entrada com as suas filhas.
Para o que nos interessa sabemos que do seu labor resultou o doce de pêra e
o doce de ovos. Ao primeiro refere-se o Ab. Vasco Moreira e sabemos que era
muito conhecido em toda a região.
O segundo aparece inclusivamente na
Cozinha Tradicional Portuguesa de Mara de Lurdes Modesto. Recentemente
há também conhecimento de uns pequenos bolos doces espalmados que era
costume distribuir aos Pobres por altura da |
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quadra pascal.
Todo um imenso
património que definha a par da agudeza do gosto, do olfacto e mesmo da vasta
que, contrariamente ao que muitas vezes se pensa, uma tradição de séculos
preservou, mesmo parecendo que a destruíra ou desprezava.
As religiosas do triângulo conventual do actual território de Sernancelhe (Freixinho
e Tabosa só desde o século passado são sernancelhenses) dão-nos uma prova de
como os labores do espírito não faziam esquecer as delícas que alimentavam o
corpo. |
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