Voltar 

O Convento da Tabosa do Carregal
 
 

D. Maria Pereira, natural de Sernancelhe, parenta próxima dos condes da Feira, era poderosa e rica. Não tendo filhos nem herdeiros forçados, decidiu perpetuar o seu nome em obra que empregasse no serviço divino os bens que o próprio Deus lhe dera, satisfazendo ao mesmo tempo a utilidade da sua alma e da sua família. Determinando fundar um convento, escolheu para a localização a sua maravilhosa quinta e dotou-o de todos os meios para que ele tivesse pujança e dignidade.
O convento, instituído no século XVII, mais exactamente a 22 de Abril de 1690, foi dedicado a Nossa Senhora da Assunção e serviria para abrigo das monjas descalças ou recolectas que professassem as regras de S. Bento com devoção e piedade, segundo expressão da própria fundadora. Trata-se da última fundação cisterciense em Portugal e é também conhecida pela denominação de mosteiro de S. Bernardo da Tabosa.
Outorgaram na escritura de fundação e doação: como primeiro outorgante, D. Maria Pereira, já referida, viúva de fora de Diogo Ribeiro Homem, e viúva que era de Paulo Homem Teles, fidalgo da Casa Real e tenente-geral das armas da Beira; como segundo, a congregação de Alcobaça, representada pelo Doutor Diogo de Castelo Branco, D. Abade do convento de S. Pedro das Águias, e Frei Manuel Coelho, D. Abade do Mosteiro de Salzedas. O Bispo de Lamego, D. José de Menezes, e o rei D. Pedro II autorizaram a fundação, que espelha a piedade religiosa e a grandeza nobre de uma alta dama.

 

Segundo disposição expressa de D. Maria Pereira, o cenóbio não deveria ter internadas menos de 25 religiosas. Destas, oito seriam escolhidas por ela na primeira intrância, sem dote e sem propinas. Reservava-se o direito de designar duas parentes suas, nas mesmas condições, sempre que houvesse vagas e as candidatas fossem pobres.

O convento foi sempre fiel na observância das regras, por mais díspares que sejam os rumores, e as religiosas viveram sempre num ambiente de piedade e edificação espiritual.

O convento, não sendo uma obra colossal como eram o Mosteiro de Salzedas e o de S. João de Tarouca, era de uma grandeza inestimável, se atender-mos às características do local e à sua origem assente exclusivamente no esforço e na piedade religiosa duma só pessoa, que não teve a acompanhá-la e a protegê-la no seu empreendimento a habitualmente liberal munificência régia.
Arquitectonicamente o convento tem a configuração de um grande quadrilátero, quase regular, erigido dentro da pequena cerca. A igreja, qual mole de granito comprida e alta com silharia lisa, ergue-se no lado norte de tal quadrilátero.
A entrada para o templo é emoldurada por um elegante pórtico de gosto renascentista encimado por uma edícula em que se resguarda a imagem da titular, graciosa e esbelta, profundamente enternecida, de mãos erguidas sobre o peito, olhando ao longe e ao largo.

 Num plano superior e seguindo a linha da fachada do templo, a nascente do quadrilátero, levanta-se o mirante, de janelas rasgadas para um terraço, de piso lajeado, com vedação própria. Era aqui o outeiro. Ao sul, situavam-se as salas dos hóspedes, o refeitório, as cozinhas e outras dependências.

O claustro estava no centro. No meio dele ergue-se ainda hoje uma artística fonte cercada de arbustos. A envolver o claustro encontravam-se as varandas duplas (ao nível do rés-do-chão e ao nível do 1º andar). De elegante balaustrada, apoiadas em altas colunas de feição renascentista, de elegante configuração e caracterizadas pela sua base ática, ressaltando a boa visibilidade dos dois toros, da Escócia, dos filetes e do plinto.

A traça originária do convento veio desde a fundação até ao reinado de D. José I. Nessa altura por despacho real de 1771, inspirado pela malévola inteligência do Marquês do Pombal, as freiras, as rendas e dotação foram transferidas para Setúbal. A rainha D. Maria I, restituiu às freiras o convento. Todavia a piedade da soberana não foi suficiente para lhes tornar tudo o que de direito lhes pertencia, ou seja, as rendas e o dote. Mas o convento foi reformado, bem como a igreja, e as religiosas passaram a viver das esmolas dos fieis e dos outros conventos cistercienses, com principal relevo para o de Alcobaça.
A partir da extinção das ordens religiosas em 1834, o convento – que não a Igreja, que o povo sempre foi cuidando e utilizando – entrou em contínua degradação, que se acentuou com o advento da República em 1910. Finara-se o convento com o óbito, em 1850, da última freira que ali permaneceu, com base na disposição legal que lhe tolerava a permanência.

A cerca, com o imóvel e a mata, é de propriedade privada e o convento transformou-se em monumental ruína a atestar a força corrosiva do tempo e da incúria caprichosa. A igreja funciona fresca e altaneira no serviço divino e com utilidade espiritual para os fieis tabosanos.

    

Fonte do texto: Da Varanda do Távora
                              Sernancelhe na Marcha da Torrente -. Pág. 71
                              Abílio Louro de carvalho

  Voltar