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O Mosteiro da Ribeira
 

Fundado no sévulo XV, é um convento bem conhecido pelas virtudes de suas monjas e pelo clássico doce de pêra. Era formado por um acervo de celas humildes em torno de um airoso templo, com um claustrozinho animado por graciosa fonte e viridentes arbustos.
Uma cerca relativamente pequena, cujos muros, a norte, roçam pela aba da serrania, abarcava por dois lados o mosteiro.
Os outros dois espraiavam-se por vasto e fértil terreiro, qual varanda de água sobre o curso de água.
A torre da igreja senhoreava sobre toda a cerca e sobre a povoação, que o tempo fez acantonar à volta do mosteiro, por ele laborando e dele colhendo a base de um sustento condigno.
A sua localização a dois Km de Sernancelhe acertou-se com o estreito mais aprazível vale que o Távora rasgou na raiz do monte de Santa Cruz e ainda agora banha e fecunda.

O rio corria sereno pelo meio de renques de salgueiros e de amieiros graciosamente debruçados sobre uma corrente límpida e tonificante.

Não sendo opulento o Mosteiro, dispunha de tesouros naturais que o local prodigalizava para delícia inocente das religiosas, que, no contacto com a natureza, logravam modos de enaltecer o Criador, granjear a subsistência própria e edificar espiritual e materialmente o presente e o futuro da população circunstante.

Hoje quem dali se abeirar, só encontra ruínas do cenóbio e uma igreja a querer desabar. Já nem a velha torre de vigia a robustez do casario ou os movimentos do decoro das monjas ou o idílio dos pares enamorados.
O claustro, as celas, os corredores, a cozinha, o refeitório, os jardins, os passeios, os tanques e as fontes – tudo outrora pujante, mas agora de mera subsistência. Mesmo assim, o local ainda pode dar azo a um empreendimento de reconfortante repouso.Assim os proprietários o queiram no aproveitamento do espaço e na utilização daquelas ricas águas.
Pois resta a fonte de abastecimento à quinta, munida de um dispositivo de compensação de modo que o reservatório não fique totalmente vazio.

A origem desta instituição é particularmente acidentada.

 Na paróquia de Palhais, havia em tempos longínquos uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de acentuada veneração por parte dos fieis das redondezas. O concelho de Trancoso fornecia o maior contingente de devotos. Para o fomento e auxílio da devoção foi ali erecto um convento de frades Bentos. Mas o seu funcionamento foi sol de pouca dura e em 1460 foi convento foi transferido para o actual sítio, na margem direita do Távora. Com ele veio a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que também dá pela denominação de Senhora do Coro. Pedro de Ameixoeira assumiu a responsabilidade de mudar a finalidade do mosteiro e confiou-o aos frades de S. Francisco de Assis.

Mas a Câmara de Sernancelhe (estrutura eclesiástica que nada tem a ver com o sentido que modernamente se atribui ao órgão de gestão do município), poucos anos volvidos, invocando cláusulas contratuais acordadas anteriormente com frei D. Pedro, deu ordem de expulsão aos frades. Em 1483, D. João II, por ocasião da sua visita a S. Domingos de Fontelo, aceitou a denúncia do leigo João Cabeça de Vaca e mandou regressar ao seu convento os frades que tinham sido expulsos.

Porém, a sorte não os bafejou. Em 1520, D. Maria Pereira, que não a fundadora do Convento da Tabosa, mas também natural de Sernancelhe e parenta dos Condes da Feira, arrimando-se na sua influência e riqueza e convicta de que os “homens” cedo lograriam um lugar onde pudessem assentar arraiais, expulsou os frades do
Convento, tomou conta dele e nele ingressou com as suas filhas. Assim o Mosteiro da Ribeira (vem-lhe o nome da situação nas cercanias do rio) passou de instituição de frades a morada e vivenda de freiras. Mantém-se na mesma família religiosa, mas no ramo feminino, sob a égide de santa Clara de Assis, irmã do seráfico patriarca. A “usurpadora” foi abadessa perpétua, a que se seguiram mais três com o mesmo estatuto: D. Isabel Aranha, D. Beatriz Pinto e D. Ana Fonseca – todas de linhagens egrégias. Em 1584, o convento passou, com a aprovação da Santa Sé, ao regime de abadessas trienais.

 

O cenóbio, enveredando pelas vias da virtude consolidada e pela observância escrupulosa das regras monásticas, formou ali religiosas de notável espiritualidade e arvorou-se em pujante centro onde se recrutaram agentes de reformação para outros mosteiros e criação de novos, como por exemplos os de Couto, Almeida, Montemor-o-Velho e Torres Novas.

Apesar de ser um dos pontos de irradiação da luz evangélica, o convento foi extinto em 1834, por força do decreto de Joaquim António de Aguiar.

Foi concedido que se mantivesse em actividade até à morte da última religiosa, não sendo lícito proceder a mais nenhuma admissão. E as religiosas passaram a viver da miséria ou das esmolas. Em 1874, algumas religiosas mendigavam na cidade do Porto e o “jornal de notícias” chegou a abrir uma subscrição para providenciar à sua sobrevivência precária. A última professora chamava-se Rita de Cássia e era oriunda de S. João da Pesqueira, de família abastada. Entrou para o Convento com dote mais que bastante para o sustento e vestuário. E a lei extorquiu-lhe o dote reduziu-a à miséria, à esmola e à fome.

O Convento desapareceu mercê das generosas (?) revoluções políticas e sociais, mas não se desfez o vale pequenino e solitário que ele animou séculos e séculos por entre penedias que enclausuravam misticamente um reduto populoso marcado pela fé baptismal.

Ali se podem avivar as saudades de um passado eivado da renúncia e da virtude que santificaram aquele lastro granítico. Ali se topa o habitáculo que só poetas ou eremitas merecem usufruir.

 

           Fonte do texto: Da Varanda do Távora
                                    Sernancelhe na Marcha da Torrente -. Pág. 69
                                    Abílio Louro de carvalho

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