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Os habitantes da Faia procuram descontrair-se na praça (no fim do dia da labuta e aos domingos), centro nevrálgico da vida social da aldeia, para não pensarem no dilúvio que se irá abater sobre a aldeia.

Aos domingos, Luis Sobral e Fernando Caiado vão ao Távora pescar barbos e bogas, de manhã bem cedo sob um nevoeiro cerrado.
Apesar do frio, Luis e Fernando estão contentes com o pescado, mas sabem que em breve já não vão pescar junto à zona do Córrego do Poio e do Córrego do Jambão, pequenos afluntes do Távora onde abundava o peixe. Aí iam quase todos os domingos desde que o Fernando Caiado começou a andar.
"Eu ainda era nova e já ouvia falar numa barragem", conta a D. Maria Rebelo
 Sobral de 70 anos de idade.
"Vieram uns engenheiros e disseram que iam construir uma barragem muito grande depois da aldeia do Vilar numa zona em que o rio Távora estreitava um pouco." Mas ninguém na pequena aldeia da Faia, no concelho de Sernancelhe, imaginava
que as águas de tal barragem viriam a inundar a Faia.
  Há mais de 30 anos que os habitantes das zonas ribeirinhas de Sernancelhe ouviam falar na construção da barragem para aproveitamento de energia eléctrica.
 Aos poucos, a obra ganhou forma, e as águas da albufeira do Vilar em breve irão então inundar as casas onde a maior parte dos habitantes da Faia viveu toda a vida. Os idosos são os mais cépticos. Não se resignam com a mudança e dizem que a nova aldeia construída um pouco mais acima, já não é para eles. "É para os jovens, não têm ainda recordação do passado, das nossas vivências e dos nossos antepassados". Tem escola nova, umas casinhas de pedra, todas semelhantes umas às outras, e com melhores condições habitacionais do que as antigas, que estão lá em baixo, mas... eu não quero chegar até lá...", desabafa António da Costa Gouveia de, 77 anos.
A hora do fecho das comportas da barragem aproximava-se; na praça, ponto de reunião dos homens, e local onde botavam editais, para que deles todos tivessem conhecimento, já se comenta que para o próximo ano por esta altura, as águas da albufeira do Távora já terão engolido por completo toda a aldeia.
Os rostos das pessoas da Faia  espelham o desgosto trazido pela obrigação de ter que sair de uma terra que sempre foi sua, para se deslocarem para uma zona mais alta, sem águas para as regas, e terrenos pouco aráveis.
Onde irão ficar a residir, numa moderna aldeia construída de raíz, apenas
a Igreja que foi muito bem transladada para a zona nova, e o cemitério, por graça de Deus, se encontrava numa zona acima do nível das águas da barragem. É uma aldeia nova, com casas acabadas de fazer, entrelaçadas por ruas bem alinhadas, mas falta-lhe algo que a modernidade dificilmente conseguirá repor: a alma. É um espaço novo sem a identidade que identifica o Faiense, talhada à força pelo rigor das circunstâncias, e não pela vontade dos homens e das mulheres que desde sempre se agruparam por opção sua nos territórios que eles próprios ajudaram a erguer. Foi assim que se fez a antiga Faia. Uma terra sem grandes motivos turísticos de interesse relevante, é certo, mas envolta num sentimento colectivo de resignação e também de saudade. Pesa sobre os seus habitantes uma espécie de sentença condenatória, que se vai traduzir no sacrifício do abandono compulsivo do chão que sempre pisaram. Serão pessoas deslocadas mas não vencidas pela modernidade do novo espaço que os vai acolher. Os costumes, as lendas e as tradições da Faia seguirão com eles na intimidade de cada pensamento. Um dia, espera-se, ganharão uma nova expressão.
A população de Freixinho e Fonte Arcada, com grandes espaços de terrenos e vales férteis, estão apreensíveis e em pânico com o grande empreendimento da engenharia que lhes irá avassalar o seu meio de subsistência
Os povos de Freixinho e Fonte Arcada, assentes nas margens direitas do rio Távora, sempre viveram ao longo dum   fértil e longo vale, cercados por montes, que os abrigava dalguns ventos. Tais circunstâncias, a natureza do solo e a abundância de águas, tornaram tal vale tão produtivo, que praticamente só ele bastou por muito tempo para a riqueza das duas povoações; por força do progresso, então no início dos anos 60, foi construida a barragem hidroeléctrica a jusante de Vila da Ponte e pouco abaixo da aldeia do Vilar, que veio inundar todo o território deste vale.
Todos estes vales ribeirinhos das freguesias de Freixinho e Fonte Arcada, possuiam terrenos muitos férteis, oferecendo muitos frutos, azeite e e grãos e aínda batata, milho, centeio, trigo, feijão e castanhas; também a produtividade do azeite era razoável.

Com o estancamento das águas pela barragem do Távora, então estas duas freguesias sofreram a amputação das suas regadas, várzeas, moinhos e pomares marginais. As aldeias, antes fartas de produtos agrícolas, vêm-se agora privadas de muitos deles. Os terrenos mais férteis foram afogados. Felizmente não aconteceu como na Faia, o casario ficou intacto.
Tal como na Faia, os terrenos agrícolas de Freixinho e Fonte-Arcada só podem compensar-se subindo para o monte, desbastando o granito macio e remetê-lo no mercado de consumo. Todavia, na era do betão, com é possível? 

Em Freixinho e Penso, existiam os moínhos do Pontigo, onde chegava a água por uma levada, batendo em cheio nas penas do rodízio, pondo-o em movimento, desfazendo os grão de milho, centeio e trigo em farinha.
Desapareceu a moagem do Sr Aquino, com um moderno lagar de azeite de prensas hidráulicas, com tulhas, garagem, a regada, a horta, o pomar, a vinha, e o viveiro de trutas.
Passava por ali a ponte românica do Pontigo, de tabuleiro em ângulo obtuso, de onde, à esquerda, sobre fragões enormes os rapazes de Freixinho e Penso, os utilizava como vestiário e encoiros se atiravam, seguidamente, de mergulho nas águas fundas e frias do Fisgueiro e, à direita, do penedo do Musguento.
Fonte Arcada foi outrora uma terra muito próspera, aliás, foi sede de concelho, e a riqueza em património arquitectónico, são bem símbolos do seu poder e sua dinâmica de outrora. Esta aldeia veio a entrar em grande decadência no último século, e actualmente possui um número de habitantes muito aquém de antigamente, e a sua população é maioritariamente velha. Concorreu muito também para a decadência da aldeia, o preenchimento de grande parte do solo fértil pelas águas da albufeira, conforme já referido, mas também o afogamento da sua antiga ponte romana (que era a maior da região e tinha 110 metros de comprimento sendo formada por quatro arcos), que ligava o concelho de Sernancelhe ao de Moimenta da Beira,
da população de Fonte Arcada ao Vilar, e assim o movimento de pessoas que deixaram de passar por esta localidade atingiram profundamente o comércio, deixando de fixar gentes na aldeia, e então aumentando a emigração.

A Barragem encheu e tudo desapareceu; a imagem do afogamento de todo este longo, próspero e histórico vale do Távora, com todas as suas pontes, quintas e aldeia de Faia só me fez lembrar o filme do navio Titanic no seu afundamento...     

     Tanta vida nos últimos milhares de anos neste local, a própria história de Portugal aqui esteve representada:

- Os estudos remontam os primeiros povoamentos humanos a tempos proto-históricos. Apareceram em tempos atrás fragmentos de cerâmica grosseira atribuídos à época lusitana. Encontraram-se, também, moedas de prata e de cobre, utensílios de ferro, pedaços de mós e marcos miliários da época romana. Existem  sepulturas gravadas na rocha, muitas submergidas pelas águas.

- O fundador da Nacionalidade, D. Afonso Henriques, que em 1140 regressava de Trancoso, coroado de Glória, bateu os mouros que tentavam embargar as suas tropas à passagem do Távora. Também nestas margens, D. Tedom e D. Ranzende descendentes de nobres fidalgos da cavalaria medieval, venceram muitas vezes os mouros. Assim, está bem presente na história de Portugal que as margens do Távora foram caminhos trilhados por cristãos e mouros, e as suas águas testemunhas mudas de muitos feitos de armas, que foram contribuindo para a formação da nossa nacionalidade.
 

- É bem certo que foi a riqueza do solo, aliada à beleza natural de todo o vale e à amenidade da temperatura anual, que deram prosperidade, habitação e alimentos a todos os antepassados que habitaram neste grande espaço, que ia desde Vila da Ponte até à zona da albufeira. A vegetação era exuberante; e a terra, que as águas dos rios e dos córregos fecundavam, era rica e produzia grande variedade de produtos agrícolas, de qualidades apreciáveis. Havia água em abundância para regas.  Neste vale do Távora quase nada importava; exportava-se, em grande quantidade, batata, feijão, milho, linhaça, castanha, nozes e frutos verdes.
O terreno estava dividido em pequenas parcelas: "dividida como está aqui a propriedade", acessível, portanto, à cultura de todos, dela beneficiando mesmo os mais pobres.
Os campos, cobertos para todo o ano de fresca relva, forneciam alimentação para o gado, e permitiam a criação deste (sobretudo gado ovino) em larga escala.
Numa região puramente agrícola como esta, onde os braços eram poucos para os trabalhos da terra, faltavam as grandes indústrias; mas havia indústrias caseiras, pequenas indústrias: cultura e fiação do linho, fabricação do queijo, etc. que davam vitalidade à zona.

-Zona com esta onde abunda o granito, foi este o material fundamental para a construção das casas da Faia, e das Quintas que se encontravam por todo o vale. Bonitos moinhos com as suas mós e regadios de granito davam uma imagem de rusticidade, vitalidade e muito trabalho, fruto de obra por vezes de várias e várias gerações.
A casinhas dispersas pelas várias propriedades eram muito características:  tinham geralmente dois pisos, e algumas vezes um. Era o tipo de casas que correspondia à pequena exploração agrícola: as gentes no primeiro andar; os animais e os produtos no rés-do-chão. O aspecto exterior da habitação era interessante: casas feitas de pedra, sem qualquer revestimento externo, com iscaleiras exteriores, também de pedra, e sem guardas dos lados; ao cimo das escadas havia um patim; não tinha janelas, apenas tinham a porta principal no primeiro andar e a porta da loja no rés-do-chão. Algumas deste tipo tinham ainda como prolongamento do patim uma varanda resguardada por um apêndio. Eram cobertas de telha.
No rés-do-chão ficava a loja que servia ao mesmo tempo de adega, de celeiro, e nela arrumavam as alfaias agrícolas, botelhas, taleigos, etc. Uma parte da loja também era corte do gado ou loja dos bois. A loja era térrea mas, quando servia de
corte, ou aí guardavam batatas ou frutas, o chão era previamente coberto de palha.
No primeiro andar estava a cozinha, a sala (quando a havia), e os quartos. Os diversos compartimentos eram separados pelas taipas. Quando não havia sala, entrava-se logo para a cozinha. As cozinhas eram escuras, não tinham chuminé e, como não eram rebocadas por dentro, apresentavam as pedras das paredes enegrecidas pelo fumo; o chão era de terra batida e a lareira de pedra.
Algumas casas tinham a lareira num plano inferior ao do pavimento; nessas, desciam dois degraus de madeira, para chegarem junto do lume.
Em volta do lume punham os  panêlos, os potes e as cafeteiras, onde cozinhavam as refeições. Quando tinham que fritar qualquer alimento, serviam-se da  traipe que colocavam por cima das brasas e , sobre ela, a sertã ou a frigideira. Por cima da tampa da pelheira  punham as tenazes e as tampas dos potes e dos panêlos. Ao lado da lareira havia uma prateleira onde punham os pratos ladeiros e outros pratos; as malgas, as enfúsias, os panêlos de malga; as cânteras ou ptchôrras; a amotilia e as aalmofias.
Pendurado na parede estava o tanheiro. Nas cozinhas raramente exixtia um armário; quando o tinham, era lá que guardavam os peguilhos, a panela com carne assada e a comida que sobrava da véspera; quando não tinham armário, a masseira fazia as mesmas vezes.
As cozinhas apresentavam um aspecto de pouca arrumação aqui punham o caneco, a sogra, a gamela, além o baldo, a tacoila ou guarda-joelhos e os alguedares.

Duas ou três cadeiras e uma mesa alta completavam o mobiliário da cozinha.
A cozinha dava acesso aos quartos.
O mobiliário destes era muito reduzido: a barra de ferro, a arca da roupa, um lavatório de ferro, ou de madeira, por vezes só a bacia sobre a cadeira.
O inxergão, ps lãiçois (quando os havia), as mentas, o trabesseiro e as cabeceiras, eram as peças que compunham a cama.

A sala (que só existia em algumas habitações), tinha uma mesa no centro, e, encostadas às paredes, várias cadeiras; sobre estas, almofadas de cores garridas; na parede estava o relógio ou alguns quadros e fotografias; por vezes havia ainda um guarda-louça. Era na sala que a família se reunia para as refeições nos dias de festa.

- Tantos valores, tanta vida tantos trabalhos, tantos sons. O perfume das flores, a sombra das árvores, o chilrear dos passarinhos. A vida das pessoas no dia a dia, as suas convivências, os seus animais, as suas propriedade, honrosamente respeitadas e tratadas, pois eram a sua subsistência, e os valores materiais e de sangue dos seus familiares.
 

No filme do Titanic, quando este se estava a afundar, as pessoas gritavam, pediam socorro, queriam ser salvas; uma grande maioria foi afogada. Os gritos de desespero e terror, decerto que sensibilizaram qualquer espectador do filme; momentos depois o silêncio....O navio afundou-se e as pessoas rápidadmente morreram geladas e afogadoas no Atlântico.

De repente também no vale histórico e próspero do Távora, tudo se afogou num instante! nem moínhos, nem moleiros.
Nem quintas nem Faia, nem arvoredos, nem o chilrear dos passarinho.
As penedias, a ponte do Pontigo, a ponte de Fonte Arcada, os amieirais, as regadas e anexos, os homens determinaram afogá-los!...                  tudo desapareceu, depois o silêncio

                 É esta a perspectiva de um poder económico condicionante, de um poder político instalado, que, sem olhar a meios, sacrificou um território, sem que os benefícios viessem a compensar, quanto mais a ultrapassar, o ónus dos custos...
 

Vila da Ponte, também atingida pela albufeira, vive um pouco abstracta com a realidade do preenchimentos das zonas mais baixas e destruição da ponte romana, pelas águas da barragem
Vivia-se na altura com uma questão pendente, que muito absorveu os espíritos dos ViladaPontenses, as discórdias do Calvário entre a Junta e a família dos Rebelos, afecta ao poder judicial.
Também a Vila da Ponte aguardava um grande empreendimento para a sua valorização e progresso: a construção da Adega Cooperativa que ali iria ficar localizada, e que se aguardava para muito breve (mas, mais tarde, por ironia do destino, e pelos motivos que todos sabemos veio a ser construída em Moimenta da Beira).
Foi feito um desvio da estrada nº 226 de cerca de 1 Km, fora da aldeia, e que há mais de 80 anos, passava pela povoação. Tal obra se deveu à barragem, cujas águas iriam represar até à Vila da Ponte.
A célebre ponte Românica, que tinha sido alargada e acachorrada, tinha ruído recentemente na parte poente, porque ao pavimentarem a cubos o tabuleiro horizontal, cortaram as pedras de ligação entre a construção primitiva e a faixa de alargamento. Depois do arranjo, ficou a parte poente do tabuleiro mais estreito para o lado da
capela do Senhor dos Passos, que parecia fazer  parte da própria ponte.

                                                                        
Lembro-me de como tudo foi rápido: foi construída uma ponte paralela em betão a jusante da ponte Romana; as águas da albufeira encheram até ao moínho do calor, inundando os terrenos férteis e prósperos da aldeia; a ponte entrou em ruínas; bem me lembro, na altura, criança, que tinha-mos medo de passar na ponte antiga, pois dizia-se que a qualquer momento ruiria, e quem passava por ela, notava umas fissuras no estrado, que deixavam ver o rio. Pouco depois foi abatida!...podendo ser recuperada!...

Antes do enchimento pelas águas da albufeira, as paisagens ribeirinhas de Vila da Ponte eram autênticos postais ilustrados:
A jusante, o rio corria por entre alas duplas de amieiros e salgueiros, com uma faixa larga de areal; lugar recreativo no estio para passar uma tarde à sombra fresca do arvoredo e nadar. Também o solo nestas zonas ribeirinhas era fértil: a batata, o milho, o feijão, o vinho e frutas, produziam-se em abundância.
A montante, os moinhos, os amieiros, os terrenos cultivados e a foz do Medreiro já junto à ponte Romântica, ofereciam uma fotografia aliciante e sedutora.
 


              

                tudo desapareceu, depois o silêncio

                              Texto:  António Canotilho

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