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Sernancelhe é realmente um concelho fértil, banhado por rios de transparentes águas e envolto por colinas verdes, lugares privilegiados para caminhar, caçar, pescar e perder horas e dias a velejar ou remar sob o sol reconfortante da região.
O passeio de hoje é a pé, bem calçados com sapatilhas adequadas, e vamos então percorrer um pouco do interior selvagem do concelho:  caminhos de montes em terra batida, estradas rurais com pavimento areado e granítico muito irregular, e uns pulos necessários para transpor uma ribeira. É o que nos espera.
Saímos de Vila da Ponte, por detrás da minha da casa, pela Quinta da Pereira acima: é uma caminhada a subir, ladeada à direita e à esquerda por lindos pinhais verdejantes, alguns carvalhos, alternados com grandes penedos graníticos, e uma flora rastejante e floreada, que mais parece um lindo tapete bem bordado: é a  espontaneidade da vida na natureza.
Chegamos então a um ponto mais alto: o Salgueiro, aqui bifurcam dois caminhos: um para terrenos agrícolas da aldeia e outro desce em direcção à Quinta de S. Roque.   É o primeiro local donde se vislumbra uma paisagem de zonas montanhosas, em que é possível admirar o monte da Senhora das Necessidades lá ao longe.
É de parar um pouco e observar este lindo poster da natureza.
É a rusticidade das casas quintaneiras, são os grandes calhaus de granito, é o perfume natural que emana de toda esta variada flora, é o chilrear das aves, que parecem comungar do o nosso pensamento: a liberdade, a admiração, o sonho e o relaxamento.

Por vezes, com um pouco de sorte lá
cruzamos com um coelhinho a atravessar o caminho, veloz, e como que amedrontado dos seres humanos.
Vamos descer então a caminho de S. Roque, que fica dum outro lado do monte a separá-la de Vila da Ponte.
 Parece que retrocedemos em anos: todos os sinais e indicadores do progresso então se escondem. A estrada é estreita, só um carro de bois ou um tractor
pequeno aqui pode passar, o pavimento está todo alcatifado de ervas verdes e bem cheirosas; os muros separadores das propriedades, são altos, de granito traçado à mão e centenários, as pedras são grandes sobrepostas umas às outras, dando-nos uma nostalgia que remota ao tempo dos nossos antepassados.

Com era possível, antes dos tempos da mecanização, talhar assim pedras tão volumosas e encaixá-las sobrepostas umas nas outras ao longo destes caminhos tão tortuosos, para limitar os terrenos dos seus proprietários?

Vamos descendo, descendo, por entre pinheiros e algumas giestas, e à esquerda apercebemo-nos dum bonito vale recheado
de videiras bem tratadas, alternando-se com lindos rochedos a condizer; e bem lá longe é possível observar-se um pouco da aldeia de Ferreirim.
Uns metros mais abaixo e afigura-se à nossa frente já no sopé do monte uma pequena vinha inserida  e isolada no meio do pinhal; dá-nos a ideia que está plantada numa estufa autenticamente natural.

É de admitir que as uvas da produção sejam de boa qualidade e bem doçes.
Chegamos finalmente ao cruzamento do caminho que vem da estrada rural de Ferreirim e Cardia rumo a São Roque.

Logo à nossa frente se visualizam belos terrenos aráveis, irrigados pela ribeira que nasce em Guilheiro, e desce até ao Seixo, rumo a São Roque, e vai desaguar então ao Távora.
Finalmente começamos a ouvir o som de animais domésticos e pessoas.
Quem? O senhor Agostinho cantoneiro e a sua família da Cardia, na sementeira das batatas.

Parece, que embora tenhamos descido para uma zona mais civilizada, os instrumentos rurais adoptados nesta região tão erma ainda são os mesmos das eras pré industrialização, em que se utilizava a mão de obra animal para as tarefas agrícolas mais árduas. Curioso, neste interior selvagem de Sernancelhe, tudo está em consonância. Estamos perante um filme natural dos inícios do século XX.
 
É interessante como se semeiam as batatas como antigamente: a mula lavra e faz os regos, as pessoas manualmente aí colocam o retalho da batata grelada de semente. 
Mas o que mais me impressiona nesta labuta agrícola, é a saudável convivência, alegria e prazer com que todos em conjunto desfrutam deste árduo trabalho.
Vale a pena assistir a  uma cena destas, e porque não, também participar? Será que não iria preencher uma lacuna do nosso ego? Será que não seria uma boa terapia para tantos, que andam por vezes com tanta carga de stress?
 

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