Voltar

                                                                                                    O nome

   

A origem do nome perde-se nas malhas da obscuridade, por mais voltas que empreendamos. Deriva-o a lenda do nobre gesto de um cavaleiro cristão que resistiu ao ímpeto traiçoeiro dos árabes, comportando-se com denotada bravura. Celio (ou Celii, no genitivo latino), depois Celha, teria a obrigação de vigiar a entrada no Castelo, quando os inimigos o haviam envolvido como que num férreo círculo. Um outro, de longe, pressentindo o grave perigo que o Castelo corria e querendo dissipá-lo, branda: “Cerra, Célio”! O cavaleiro reagiu impulsivamente ao brado, empurrando os sitiantes e cerrando a entrada. Grito célebre originou nome esquisito e empolgante?!

                                                               

O povo de antanho radica a denominação na topografia peculiar do nome do Castelo: viria o topónimo de “serra” (não do verbo cerrar, mas a silhueta do próprio monte em que se acastelara a fortaleza) e “celha” (já não o antropónimo, mas o nome comum do recipiente a que se assemelha o monte em posição invertida).

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira assegura que “não pode haver dúvida de que o topónimo ‘Sernancelhe’ é de origem antroponímica: parece pela sua forma antiga, Seniorzelli (século X) o genitivo de um nome próprio pessoal Seniorcellus”. Este deve ser um derivado do latino Sénior com o sufixo de sentidi diminutivo –ellus e o infixo c  eufónico. Tal sufixação é mais aplicável a topónimos originados de nomes comuns e não antroponímicos, como em Arcozelo, Portuzello, etc., mas é paralela à verificada em Seniorinus e Seniorini de que proveio Senhorim. Semorzelli e Sermozelli seriam formas erradas ou de má leitura de alguns autores com relação a Seniorzelli. E o topónimo Seniorzelli mencionado, quer no testamento de D. Flâmula (Chama ou Chamoa) em 960 quer no inventário dos bens do mosteiro vimarenense, em 1059 fundação da Condessa Mumadona, é o Sernancelhe visado neste nosso trabalho.

Pinho Leal, mesmo assim, deriva Sernancelhe de “Sermozele”, palavra pretensamente constante do testamento de D. Flâmula para designar o Castelo. Seria o grito (sermo) de Célio? Não é fácil determinar com segurança a origem mais consentânea do termo. Certo, certo é que o foral de Egas Gozende lhe chama “Cernoceli”. A partir daqui a evolução fonética do vocabulário é por demais explicável. A grafia em c, corrente em determinados documentos e perfilhada com a única certa pelo Abade Vasco Moreira, explicar-se-ia pela influência por cruzamento de outros topónimos como  Cernada e Cernache ou pela generalização da grafia em c  em determinada época tal como agora em s  desde que possível.

 

 Voltar