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                                          A Igreja Matriz de Sernancelhe
 

 

                               
A igreja matriz, dedicada a S. João Baptista, o padroeiro da Vila, é um gracioso templo românico, quase coevo da fundação da nacionalidade e, sem dúvida, um dos mais atractivos no género nas províncias da Beira Alta e da Beira Baixa.

                                                    

Arquitectando um recolhido espaço de solilóquio com o transcendente, formando um dignificante ponto de encontro e de convívio da comunidade crente, constituindo imbatível baluarte de defesa contra o inimigo, torna-se por isso, o mais significativo monumento do aglomerado: é uma edificação implantada, nos finais do último quartel do século XII (1172, da era cristã: a data que se vê, “E. MCCX”, em silhar no lado norte da cabeceira, refere-se à era de César), sobre os escombros de templo pré-românico envolto por necrópole. Desta ainda sobejam abundantes marcas em afloramentos rochosos, tais como sepulturas antropomórficas e tampas tumulares medievais com variada decoração. De entre as últimas, destaca-se uma tampa lavrada com um motivo antropomórfico geometrizado. Tal peça é de inegável interesse, dado o tipo de representação gravado ser comum às placas do período megalítico, o que pode denotar uma persistência dos rituais mágico-religiosos do paganismo associado a práticas cristãs. A traça românica de origem, constitutiva do todo arquitectónico, sujeito a alterações que o tempo e os temporais exigiram, está presente na invulgar cachorrada que cerca a capela-mor, em que se incrustou uma teoria dos mais diversos pormenores escultóricos e os mais belos motivos artísticos, que atestam abundantemente os importantes e significativos momentos da vida agrícola ou das cenas familiares. De acentuado realismo, se descortina uma mulher, com as mãos na barriga (provavelmente em trabalho de parto), uma criança, e, pintada a ocre sobre uma estrela, uma pipa. Resiste ainda a feição românica no semicírculo de esferas que percorre o arco-cruzeiro, na multiplicação de siglas e na peculiaridade do pórtico. Este é encimado em arco de volta perfeita e coroado por um óculo de morfologia estelar quadrilobada, constituída por três arquivoltas (apoiadas em três colunas capitelizadas de frustes cilíndricos, coroados por capitéis de pequenas volutas), de que a central é formada por uma teoria de arcanjos de asas abertas e em que as cabeças de dois se encontram ao centro e depois os outros estão dispostos de modo a que os pés de um sirvam de dossel ao imediatamente seguinte. De um e do outro lado do portal, topam-se dois nichos-baldaquinos com raros espécimes escultóricos, a metade restante do anterior conjunto de quatro, que formaria um rico apostolado, invulgar no românico nacional, objecto que fora de sanha destruidora das tempestades e coriscos, a que naturalmente estes imóveis se encontram expostos, e que incidira em determinada ocasião na parte superior da fachada, tendo-a danificado grandemente. A tese da trovoada demolidora é confirmada pela diferente natureza material do tímpano e da parte superior da frontaria, pela compleição do óculo e pela estrutura dos pináculos – elementos de acrescentamento mais recente. Quanto à identificação das esculturas dos nichos-baldaquinos, os autores falam claramente dos quatro evangelistas acrescidos dos apóstolos Pedro e Paulo, o que parece contradizer exame mais atento: seis as esculturas, mas sim, de seis apóstolos, sendo um certamente o apóstolo Tiago, o peregrino da bolsa. Dois dos evangelistas não são apóstolos no sentido técnico e estrito, pelo que não podiam constar deste conjunto quando inteiro.

                                                       

A empenada da fachada é encimada por uma cruz e pináculos (ou pirâmbulas), uma de cada um dos lados.

A torre sineira, de dois andares, quadrangular, tem inscrita a data de 1638, que justifica, como outros elementos, designadamente as cornijas, a grande operação remodelada no século XVII. Na parte superior, a do campanário possui, em vada face ventas germinadas de arco pleno. A parte terminal é encimada por pináculos setecentistas e uma pequena venta com sineta suplementar. Tem porta de acesso quer pelo exterior quer pelo interior.

No lado oposto à torre e um pouco mais recuado, divisa-se o corpo da sacristia lateral adossada à empena da capela-mor, que tem uma janela, e a toda a volta, cachorrada de decoração diferenciada a assentar sobre cornija adornada com uma cadeira de pequenas esferas.

                                   

O corpo da igreja é de maior altura e remata em cornija lisa sem elementos decorativos. Possui porta lateral de arco apontado, capelas laterais uma de cada lado e pequenas frestas rectangulares.

No interior, podemos observar a talha dos altares (o altar-mor com talha renacentista e sopé de tronco de lausperene com esplendor e os antigos altares laterais, com talha barroca, ora encostados pelo interior ao muro que enquadra o pórtico), um conjunto de esculturas de vários séculos, um capitel visigótico a servir de pia de água benta, os quadros pintados dos séculos XVI e XVIII. E ainda as pinturas a fresco, do século XVI, de um e de outro lado do arco-cruzeiro, que representam: do lado do Evangelho, a Virgem apocalíptica, de mãos postas, esmagando a cabeça envenenada do dragão enganador, com a cidade santa de Jerusalém lá longe por detrás de si, sentindo-se o afloramento de fresco pintado por baixo, provavelmente do século anterior; do lado da Epístola, Nossa Senhora do Rosário, com as contas dos padre-nossos maiores que as das ave-marias, e todas de configurações diferentes. Carlos Alberto Ferreira de Almeida mostra o interior da igreja matriz de Sernancelhe como dando-nos “uma preciosa indicação da estima que havia, no passado, pelo colorido do interior das igrejas, chegando-se mesmo a reforçar pictoricamente os lavores esculpidos das arcadas e dos capitéis”.

Pode ainda admirar-se a capela setecentista, de arco a pleno centro, dedicada à Senhora da Conceição com o túmulo quatrocentista, sob o seu arco sólio da família dos Pachecos da Cidade de Rodrigo em que se torna visível uma inscrição gótica. A capela possui ainda dois altares em talha, um proveniente de propriedade particular, outro que emoldura a imagem da Virgem sem pecado concebida. Nesta capela, se pode examinar a bela escultura de Santa Margarida de Antioquia, de feições maneiristas, com almofadas vestuárias sobre os ombros, a empunhar a espada contra o dragão que parece pretender amordaçá-la. Inadequadamente alguns confundem com os desta escultura os motivos artísticos e ideários da Virgem Apocalíptica de um dos frescos e chamam à Virgem Apocalíptica a Santa Margarida.

A pia baptismal, provavelmente de origem visigótica, situa-se em nicho com arco de volta inteira a que se segue uma capela, já aludida, cujo altar é de talha dourada e cujo tecto é formado por diversos caixotões que lhe emprestam um policromado de singular expressividade.

Tanto a nave como a capela-mor possuem tecto de madeira de pinho a duas águas.

Tal como nos séculos XVII e XVIII houve necessidade de se proceder a restauro, segundo as necessidades que a erosão do tempo impõe e segundo os ditames da arte em vigor nas diferentes temporadas, também no último quartel do século passado se operou uma grande obra de restauro e  de conservação – o que lhe vincou uma matriz de harmonia e de proporcionalidade. Não deixando de se lamentar a onda excessivamente depuradora, segundo a qual só teria valido aquilo que restasse dos primódios (lógica pela qual o mais óbvio seria acabar com a quase totalidade do templo), é com sentido de justiça que, por outro lado, se aplaude a preocupação da pureza arquitectónica, eliminando ou minorando as excrescências que testemunhem a mera dinâmica do supérfluo.

O exame atento dos muros interiores deixa reter uma panóplia de pequenas gravuras de arte rupestre, testemunhos de cenas da vida campestre, pastoril ou cinegética e até dialéctica do bem e do mal.

O arco-cruzeiro ou arco-triunfo, apontado, tem incrustado decoração com pequenas esferas (todas diferentes) e pequenas cordas.

Resta uma palavra de apreço para o acervo das ricas alfaias litúrgicas, de que se destaca a preciosa e diversificada paramentaria e a pesada e artística custódia-ostensório.

Ainda digno de nota se descobre um ex-voto à Senhora da Piedade, quadrinho saído do pincel de Carlos Massa, pintor sernancelhence cujos trabalhos se topam disseminados por muitas capelas e igrejas da Beira.

                                                                   

E se dermos uns passos mais adiante, outro monumento nos aparece. Paremos um pouco para o seu exame.

 

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