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                                                    A casa da Comenda
 

 

                                                    
A casa da Comenda de Malta, de fachada corrida, a mais antiga das casas solarengas que embelezam a Vila, mesmo depois de recuperada para unidade de turismo de habitação, mantém o aspecto de severa habitação de freires e comendadores de avultadas posses que prestaram à comunidade relevantes serviços.  Está inscrita no seu brasão a data de 1611.

                                          

Existindo em Sernancelhe a Comenda da Ordem de Malta desde os primórdios da nacionalidade, outra sede ou outro palácio dever ter tido, naquele lugar ou noutro. A ordem não criou um estilo arquitectónico próprio. Adoptou o estilo corrente ou em voga em cada lugar e em cada século. Aquele, no entanto, que mais a influenciou ou que melhor se adaptou, terásido o românico, numa época, e o barroco, noutra.

Por conseguinte, o último edifício da Comenda de Sernancelhe é de austera nobreza e de sobriedade imponente. Foi levantado nos alvores do século XVII, mas com lavaios ainda no período quinhentista, como o revela o entono do seu fácies e algumas portas em bisel. Toda da fachada corrida, de granito amarelado e cornija condicente, é enobrecido pela incrustação dos símbolos da sua missão religiosa e militar da defesa da religião, da pátria e dos peregrinos e humildes. Lá se podem mirar, pois, as quatro bocas de canhão: duas maiores e de colarinho rendilhados e outras duas, mais pequenas e de colarinho sem qualquer lavor. Estas duas encimam a porta da capela privativa.

A capela foi construída em época diferente da casa. Sobrepuja a frontaria o brasão do Comendador (que não o da Comenda ou da Ordem) que terá mandado construir esta parte do edifício.

O brasão tem a data já indicada de 1611 e é esquartelado. O primeiro quartel é de Homem, o segundo de Vasconcelos, o terceiro (também esquartelado por sua vez) alia as armas antigas e as modernas dos Limas e o quarto é a Bandeira, referente aos Sobrais, que receberam dos Avelares. Sainte do brasão, nas quatro direcções, existe uma cruz que aparenta ser dos Soares de Albergaria, se não da Ordem de Malta ou mesmo da Ordem de Cristo.

                                         

A casa, se exceptuarmos as janelas, tinha uma arquitectura muito semelhante à do Paço dos Sobrais, também denominado com Solar dos Condes da Lapa e Barões de Moçâmedes. Os Sobrais estabeleceram-se aqui por Fernão Peres de Soveral, que instituiu o Morgado e a capela de S. Teotónio de Sernancelhe.

A influência das arquitecturas deve ter origem nas ligações havidas entre a família e a ordem.

A casa tem, ao nível do rés-do-chão, um enorme quadrilátero, à laia de claustro, com diversas portas para as dependências ao mesmo nível e para o quintal, à retaguarda, com um poço ao norte. Dali, à direita e à esquerda de quem entra e observa o claustro, ascendem dois lanços de escadas que dão para o piso superior e desembocam numa plataforma em varanda corrida, com janelas abertas, a fazerem de mirante para a vasta, artística e bonita Praça de Sernancelhe, antes apodada de Largo do Adro ou Largo da Igreja e que por via da onda inovadora do regime post-monárquico passou a denominar-se Praça da República.

                                          

Em cada topo da varanda se vê a porta a dar para as salas e dependências da vida social e doméstica dos freires bem com as actividades específicas da ordem. À capela acedia-se tanto pelo interior como por dois lanços de escadaria exterior.

O Salão Nobre possui um tecto em masseira e caixotões.

Do outro lado da dita Praça da República, onde hoje se encontra o edifício da antiga Escola Primária, construído nos primeiros anos do Estado Novo (postergando para memória brumosa os vestígios do imóvel antigo), estava a “Casa da Tulha”, também da Comenda, ostentando no frontispício o seu brasão de nobreza.

Também este brasão é esquartelado. Tem no primeiro e quarto quartéis uma contrabanda abocada por duas cabeças de serpe; no segundo e no terceiro, as três faixas veiradas de prata e vermelho dos Vasconcelos.

O brasão esteve muitos anos olvidado perto do chafariz e recreio sul da referida Escola Primária. Casual ou ironicamente recolheu à “cadeia”, nos baixos dos antigos Paços do Concelho.

A Casa da Tulha, como o nome insinua, era de serventia: abrigava o celeiro e a adega. Funcionava como o centro de administração e de recolha de vasta casa agrícola que se estendia por todas as paróquias do seu padroado e ainda por outras de outros concelhos.

                                         

Quer dizer que a comenda não teve, nem podia ter, um único imóvel, para sede, funcionamento da comunidade dos freires e administração dos proventos que lhe advinham de várias partes e com os quais fazia face às despesas decorrentes do cumprimento das suas obrigações quer de natureza espiritual quer de índole temporal.

 

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