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                                                 Percorrendo, percorrendo
 

 


Lançando o olhar sobre o Norte, no sopé do Monte do Senhor do Castelo, deparamo-nos com a Casa dos Condes da Lapa e Barões de Moçâmedes, mal podendo salvar-se a ruína crescente, com o seu brasão inscrito no muro sul, apagando totalmente a imagem dos seus primordiais titulares.

                                                        

Caminhando para nascente, encontramos o Solar dos Carvalhos, moradia fidalga dos meados do século XVIII, que foi pertença de Paulo de Carvalho, tio do Marquês do Pombal. Os panos do muro são caiados, mas emoldurados por painéis de granito amarelado, da região – com o que se nota um harmonioso e equilibrado jogo de luz e sombra. Os dois corpos do palácio, de linhas tão proporcionadas, tão simetricamente ligados pela capela barroca, que proporciona ao imóvel um tom de religiosa nobreza e guarda pinturas de Pascoal Parente.

                                           

As ruas da vila vestuta de Sernancelhe transportam-nos, por Quelhas e ruelas, onde moravam outrora camponeses e artesãos, para o reino do campesino. Assim, por detrás do referido Solar dos Carvalhos, que o ocultou da igreja matriz, fica o mais antigo bairro de residência que resta à face do burgo, de casas baixas e muitas com balcão de pedra. Por ali desce o caminho que conduz ao rio Medreiro, linha de água de pequeno curso, mas onde pontificavam os moinhos que, há bem pouco tempo deixaram de moer e a ponte românico-gótica, provavelmente reconstruída nos finais do século XVII ou nos alvores do século XVIII, que dava para as quintarolas de Cardia, mas hoje de serventia quase inusitada.

                                                                          

O aro do povoado mais antigo, se prossegir-mos, escancara contra o nascente uma janela cuja cantaria lavrada mal se insere no muro rústico. Remontam a um século XVII recuado as arestas biseladas a patine e o tom de antiguidade. Um cedro gigante parece insinuar um contexto de aceso romantismo e sugere a evocação de cenas de bem acilado idílio. Do outro lado do caminho, sobressai um pórtico de boa cantaria, cuja cornija de bom lavor, relíquia da edificação geminada da perdida mansão aludida janela que uma forte tradição liga à família do Marquês do Pombal, ilustre e controversa figura da vida política portuguesa.

                                          

Ali pertinho, um nicho com uma Senhora da Piedade parece apontar um pequeno largo com um cruzeiro – a Cruz da Calçada, lugar de referência para o antigo caminho, porventura decalcado sobre uma estrada romana, que conduzia ao Medreiro as lavadeiras e as mulheres que carregavam a água da fonte do mergulho, de arcatura geminada, de feição românica, embora de construção ou de recuperação e adaptação tardia, aberta sobre a margem direita do rio, junto da capela alpendrada de Nossa Senhora dos Prazeres.

                                                                             

 

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